03 fevereiro 2006

Shall never surrender II (© Blasfémias) ...

Quanto ao texto de Peter Singer, mencionado no post A Vendetta dos folhados de Salsicha V do sempre pertinente CineFilosofia, leva-me a questionar se não será preferível que os internautas chineses (no caso mencionado) tenham acesso parcial em vez de não ter, de todo, o acesso a certos conteúdos, independentemente de as empresas em questão estarem também (e fundamentalmente) a defender o seu interesse comercial?

É que se é (tem sempre sido) assim tão ténue a fronteira entre a facilidade/dificuldade de censura/liberdade de expressão, também é mesmo muito difícil censurar tudo. Ver por exemplo técnicas simples e novos "dialectos" para dar a volta ao problema. Se os sites em questão (Google, Yahoo, MSN, etc.) fossem bloqueados totalmente (por iniciativa do governo chinês) seria bem pior em termos de acesso a "conteúdos do exterior". Aqui está um exemplo de que o egoísmo de uns (gerar lucro) é o garante (parcial) do acesso à informação de terceiros que de outra maneira(s) seria muito (mais) difícil de obter.

Em relação ao "furor" do momento, não me repugna a intolerância nem de uns nem de outros. O que me deveras preocupa, é alguns tentarem censurar os outros, recorrendo não à argumentação e discussão de ideias, mas sim pela intimidação e violência. Acho que esta é uma boa razão para não tolerármos certos e determinados intolerantes!

Na minha opinião é aí que está o fulcro da questão!

Já agora, e correndo o risco de me desviar do assunto em questão, é com exemplos destes que vimos quem são as culturas/civilizações que se encontram em estágios mais avançados de desenvolvimento que outras. Mas isto é uma outra discussão ...

2 comentários:

Lufiro disse...

Humm..., acho esta perspectiva interessante, mas pouco defensável. Refiro-me só à justificação que poderíamos atribuir à Microsoft por providenciar acesso a liberdade de navegação e, logo, de informação. Penso que o argumento não é bom porque invoca ou apela para uma troca: "Permitiste o acesso à informação, logo tens moral para cometer actos (erros éticos) do tipo de vedar essa informação a pedido de grupos de interesses e governos que desejam implementar a censura". Isto é o mesmo que dizer a uma criança que não pode comer o rebuçado que lhe demos porque lhe irá fazer mal aos dentes. 1) há, julgo, uma contradição entre os dois actos; 2) há um claro abuso de poder. Nenhum destes actos me parece facilmente justificável. Porém, julgo que, vistas as coisas de uma perspectiva que favoreça o pragmatismo (em sentido lato),foi bem melhor a Microsoft ter fornecido a possibilidade e depois tê-la tirado, do que não a ter sequer fornecido. Mas não podemos ver essa oferta como uma oferta puramente altruísta, como se o Bill Gaitas não tivesse em mente os milhões de consumidores do mercado chinês. Mais: o rapazito deve ter sido colocado entre a espada e a parede. Devem-lhe ter dito que ou faziam o que eles, governo chinês, queriam, ou perdia um mercado com muitos milhões de clientes (só o maior e de mais crescimento previsto no e para o presente Séc.)

Um abraço,

india disse...

As questões que o Professor enuncia mereceram uma leitura atenta, complementada pelo contributo de Lufiro. Deixo algumas ideias e a minha perspectiva do que foi dito anteriormente.
A consciência do outro e da sua diferença traduz o nosso grau de maturidade e de afirmação individual. As crenças e as vivências extremas, sejam elas religiosas ou de outra natureza, invariavelmente ultrapassam os limites da razoabilidade e entram na esfera do outro e das suas convicções. Neste mundo global, a lógica económica, tal como a lógica religiosa ou política,dispara muitas vezes o míssil contra as liberdades individuais e, por efeito de onda, contra as liberdades do grupo/comunidade. Quem está certo ou errado...? Não tenho a presunção de acreditar na verdade única...o que me tem trazido alguns dissabores.. Acredito sim na tolerância, enquanto compromisso de coabitação. Estamos cá, estamos próximos, geografica e culturalmente, temos que chegar a uma gestão moderada de valores e práticas. E este exercício é o resultado do diálogo, da observação, do conhecimento do outro uma e outra vez.. porque o outro, tal como nós, tem muitos momentos, e alguns rostos... Nem todos os dias são dias sim... mas também não têm que ser dias não...A esta convivência vigilante eu chamo liberdade. Minha e dos outros. Porque nos olhos dos outros eu vejo os meus.